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Sol nascente, descendente

Este ensaio narra a experiência de uma mulher que, aos sessenta e dois anos, conhece seu pai. Estas imagens prestam testemunho de um homem que se familiariza com seu sogro e passa a cuidar dele. Estas fotografias registram a história de dois homens que ouvem, pela primeira vez, relatos sobre seus antepassados. 


Enquanto família, conhecemos um ancestral. Agora sabemos de onde vêm os traços que levamos no rosto, assim como o timbre de nossas vozes: já habitavam o ar, emitidas por pulmões que respiraram as manhãs nascidas antes de nós. Não saberíamos dizer como ele nos interpretou quando o encontramos sozinho, chamando-o de “pai”, “sogro”, “avô”. Sabemos apenas que, nos meses em que convivemos diariamente, enquanto cuidávamos de suas necessidades mais urgentes, como exames médicos, uma cirurgia de catarata e a reaproximação com sua família oficial, ele não dizia nossos nomes, ou “filha”, “genro”, “neto”. A princípio, atribuímos essa recusa à catarata, depois, aos seus noventa e quatro anos, não chegando a qualquer conclusão — se essas palavras produziram algum sentido para ele, ou mesclaram-se a outras pessoas, indiscerníveis, não podemos dizer. O que sabemos é que nossos antepassados se estabeleceram em Mogi das Cruzes, Brasil, vindos de Miyazaki, Japão. E se a imagem do sol nascente dá nome ao país asiático, as fotografias deste ensaio testemunham uma busca pelas tremulações tardias dessa luz que, à sua revelia, nos constituiu.

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